08 dezembro 2010

E eu achando que minha vida era ruim...

Jânio foi um menino muito arteiro, gostava de chamar a atenção por onde ia, nunca pensava antes de fazer alguma coisa e sempre sofria as consequências disso, já ficou tanto de castigo que  perdeu as contas, um dia ele se encontrou em dúvida e foi nesse momento onde recebeu algo chamado consciência, ele devagar percebeu a situação onde se encontrava e amedrontou-se e a partir daí mudou seu modo de viver, aprendeu a raciocinar antes de agir começou aos poucos pensar no futuro, assim como fazem os estrategistas sempre um passo a frente, não que ele fosse um, a surpresa foi algo que ele não podia controlar até então, ele conseguiu sobreviver ao fato, resolvendo não assumir uma responsabilidade e fingir que não entendia nada.

Este menino vivenciou a própria vida como um espectador à parte, negando sempre seu potencial, apenas por medo do peso das responsabilidades e as consequências ruins que delas ele poderia obter, criou em volta do corpo uma carapaça onde se protegia de tudo até das boas coisas, ele maltratado por seus colegas e amigos, nunca percebera os insultos diários, começou a se isolar do mundo, chegando até um dia a brigar com Deus e acabou pedindo pra que tudo e todo mundo sumisse, pra deixar de atrapalhar a vida dele... Um tempo depois ele tomou gosto pela escrita e pela fé, deixou seu eu inconsequente para trás e procurou crescer, mas acabou por se frustar ainda mais... buscou tanto reconhecimento daqueles que tanto admirava ao longe com sorrisos felizes que ficou orgulhoso.

Em certo momento ele assumiu não ser humano, ser um criatura diferente da raça humana era seu objetivo principal, orgulhoso mais ainda colocou dois fones de ouvido e calou a voz do mundo, mergulhou cada vez mais na sua mente e descobriu coisas incríveis, mas novamente um impasse não tinha com quem compartilhar, então resolveu criar um ser imaginário e sempre manteve comunicações com este ser, chegou a discursar várias vezes com o Djin(o imaginário), novamente insatisfação com seu “companheiro” percebeu que ele não tinha mente própria e não podia dialogar à altura, refletiu diversas noites e decidiu virar humano novamente pra procurar alguém que fosse contra ou a favor dele, que tivesse uma opinião lógica racionada não copiada.

Jânio voltou a ter amigos e a ser sociável, conquistou muita gente com seu jeito quieto de ser e resolveu se soltar aos poucos, mas aconteceu: pego de surpresa novamente e a dor de ser criticado,  não agia errado, mas ainda sim o difamavam, ele chorou no quarto e chegou a conclusão de não deixar-se abater e procurou ser forte como uma pedra funcionou por um tempo essa atitude até perceber que suas amizades eram vazias, bastava um pouco de pressão pra cada amigo mostrar seus verdadeiros sentimentos, ele mentia um pouco pra testar a paciência de cada um. Nessa altura do campeonato manteve-se meio humano e meio inumano, passou a analisar logicamente tudo que o cercava e se desesperou cada vez mais quando descobriu a camada de falsidade criada por cada pessoa que conhecia, nos olhos de todos lia desprezo e apatia, chorou por ter vivido tanto e não ter criado vinculo sincero com ninguém, procurou mesmo com as pessoas desprezíveis criar um laço de amizade querendo entender sempre mesmo quando essas pessoas faziam coisas erradas apoiava sempre, isso o deixou moldável ao ambiente.

Jânio conseguiu reconhecimento como ser humano ficou feliz por existir no mundo pra algumas pessoas, logo conseguiu uma namorada a qual ele entregou todo seu coração, dedicação e planos para o futuro, sempre pensou em boas coisas nesse tempo, embora o relacionamento apresentasse uns problemas, ele decidiu dar sempre carinho, mas sua namorada não queria mais o carinho que ele tanto dava de coração, ela não entendia o problema dele, não procurou nenhum momento sequer perguntar o porque dele ser tão diferente, procurava corrigi-lo não aceitando os seus defeitos e limitações, ele que sempre teve esperança no coração era fácil perdoar quando ela errava, ele se dispôs a doar todo o seu tempo em função de agradá-la, sem sucesso descobriu o que ela realmente queria, a sua amada não queria nada mais que um homem que desse tudo o que ela queria de material, pudesse controlá-lo como bem entendesse e mostrá-lo como atração para suas amigas, ela viu que ele era diferente demais dos planos dela, viu que ele fazia tudo que ela pedia, mas não completamente, após uma longa discussão Jânio ganhou um presente de aniversário, na ocasião ele não aceitou bem a ideia de voltar a ser um homem solitário, mas com um pouco da dor da separação e ele percebeu que o amor que ele tinha por ela não era mais que um desejo inconsciente de companhia, não pesou com a racionalidade e pela lógica como sempre o fez e se deixou levar pela emoção e amou cegamente.

Tempo depois novas emoções no coração sombrio de nosso amigo, ele se encontrava num novo ambiente hostil que ele fez como sua segunda casa, se preocupava com todos até com os que lhe ignoravam, deixou sua guarda baixa e socializou, mesmo cometendo erros e encontrou uma surpresa que abalou seu coração e o preencheu novamente, o medo das consequências de seus atos o perseguia, sabia que se agisse de forma imprópria poderia perder tudo que havia construído, conseguiu o que ansiava por pouco tempo, mas com a pressa que conseguiu da mesma forma perdeu, isso se repetiu por vezes, com tudo nas mãos viu o quão vazio era viver dessa forma, os amigos que ele cultivava sempre por perto, o destino os levou para longe onde seus pés não alcançam, era simpático com todos que falavam com ele, mas a realidade é que ninguém via o que ele tinha nos olhos, a mais pura tristeza a dor que atormenta uma alma sofredora, essa alma que buscava motivos para existir e prosseguir, sempre risonho, mas vazio por dentro desesperadamente em busca de paz interior, são poucos os momentos em que conseguia sintonizar em boas energias e os aproveitava bastante.

O problema de Jânio é que ele não sabe mais o que fazer e como fazer pra prosseguir, ele que tanto amou se vê enquadrado por diversas dúvidas, ele tem como principal objetivo achar uma certeza, nesse mar de incertezas que é a vida periga nunca encontrar sua esperada, e muito menos a si. Não sei como ajudar Jânio, ele já nem pensa mais com racionalidade se entrega puramente a emoção, por isso se fere várias vezes com diversas pessoas, não o daria conselhos, pois creio eu que ele já tenha recebido todos os possíveis e infundados conselhos da terra, gostaria de dar a certeza que ele quer pessoalmente talvez eu fosse visto como a pessoa mais importante do mundo e seria um verdadeiro amigo por dar tamanho presente, é tão ruim ser impotente nessas horas, Jânio quer compreensão, mas não de mim e sim da sua outra metade perdida no espaço.

Não falei do final da história dele pois eu não sei, faz muito tempo que ele não está por perto, só posso dizer que ele nunca me decepcionou, acho que por não não ter convivido mais com essa grande figura, o que não consigo entender é que pessoas como ele que tem tanto amor no coração acabam em profundo desespero pelos os que têm a capacidade de retribuir, ele desapareceu  e deixou saudade, apenas uma pedra de xadrez dele ficou pra trás, a do peão que muitos consideram sem valor e sacrificável para vitória do jogo, mas ele sempre me disse que não tem valor uma vitória sem as pessoas pequenas (peões), essas que são sempre tristes e que muitos (demais peças) evitam com medo de acabar da mesma forma, pequeno e sem importância (sacrificável no jogo da vida) eu não sabia que ele estava referindo a si como peão, também demorei um pouco pra entender muitas de suas indagações, diria que a principio insanas para muitos.

Não pude dizer a este grande amigo algo digno de lhe dar esperança pra continuar, pois concordava com a maioria de seus pensamentos sinuosos, hoje embora passe por algo parecido no meu peito mora uma esperança pequena que me levanta todos os dias, uma vontade de prosseguir, como Jânio quero uma certeza, o diferencial é que tenho certeza de posso encontrá-la, não sei por onde começar por isso me ponho em espera profunda. Minha alma fraqueja de vez em quando, mas logo se cura como se parte de mim não me deixasse entregue à insanidade, tenho como teoria que isso é a manifestação da minha fé. Muitos sábios dizem que é irracional acreditar em Deus, sem Ele não tenho mais nada que me dê razão.

Um comentário:

*ANA* disse...

Meus Deus! que história fantástica, profunda e cativante, embora não seja muito alegre. Janio nada mais é que um espelho de muitos corações perdidos por aí em busca de seu eu e de sua alma gêmea. Espero que Janio um dia se descubra.

Muito lindo seu texto Rair, lindo mesmo.